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misfit

por Filipa, em 07.08.12
Não brinco quando digo que aqui não é só a condução que é feita no lado contrário. Aqui, tudo é ao contrário. A única coisa que não está ao contrário é a altura do dia em que estas criaturas dormem, de resto oferece-me dizer, pá, foda-se, já se deixavam de merdas e atinavam, não? Aqui, uma pessoa não precisa de convite para ir a um casamento. Se quiser vai e pronto. Os convites são meramente informativos. Quando é um funeral, a coisa muda completamente de figura. Só vai ao funeral quem tiver convite. Sem convite, temos pena, mas tens mesmo que ir chorar para outra freguesia. Aí, o gasóleo é mais barato. Aqui não. Aqui andar num carro movido a gasóleo é para os ricos. Aí os carros são caríssimos. Qualquer charuto se faz pagar bem. Aqui não. Aqui com mil libras compras um Audi. Aí, a maioridade acontece aos dezoito, aqui depende. Para conduzir é aos dezasseis mas tosgas só aos vinte e um. Aí desde que tu ou alguém pague o teu próprio álcool, podes bebê-lo onde te der mais jeito. Aqui, não podes ingeri-lo na rua. Aí, o marido bate na mulher, fodidíssimo por o Benfica ter empatado, ela faz queixa e só quando é morta é que a polícia aparece. Aqui, o marido supostamente bate na mulher e a polícia aparece. Depois, na esquadra, logo se vê se bateu ou não. Aí as Portuguesas são as sérias e as emigrantes umas putas. Aqui é tudo puta. Aí, alguém com tatuagens é alguém que nunca irá trabalhar, por exemplo, num banco. Aqui a única pessoa que não tem uma tatuagem é a rainha. Acho. Aí um gajo vai ao shopping de fato de treino é azeiteiro, aqui está pronto para ir para a night. Aí as gajas querem casar. Aqui querem fruta. Os gajos aí querem é putas e vinho verde. Aqui querem vinho verde. E branco. E tinto. E cerveja. E caipirinha. E vodka. Acredito que seja engraçado pra vós perceber tantas diferenças, para mim é só cansativo e dou comigo a pensar, é só um pensamento, ok?, por favor não nos vamos agarrar agora a ele como se estivéssemos todos a cair, e se eu bazasse mas era daqui para fora?

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Vou desenhar aqui uma pescadinha de rabo na boca mas em forma de palavras, a ver se me entendem quando digo que estas criaturas mal dispostas não batem mesmo nada bem do tijolo e não sou eu que estou numa de implicar. Uma pessoa chega e pensa, ai vou abrir uma conta num banco para me depositarem lá o ordenado. Não pode, a menos que tenha uma factura que prove que reside em determinada morada. Pode ser, por exemplo a conta da água e aqui começa logo a dar merda porque para se ter uma factura da água tem que se ter antes de mais uma casa. E uma conta no banco para a pagar todas as semanas. Para se ter uma casa, além da conta no banco, tem que se trabalhar, mas enquanto não se tem número de segurança social, desconta-se balúrdios para um número provisório. Para se ter número da segurança social tem que se ir ao médico (pá, nem perguntem, a sério), que, se achar por bem, nos passa um papel para levar aos bosses aqui da zona. Para termos médico, temos que preencher uma resma de papéis onde consta, entre outros despropósitos, a pergunta mais descabida de todo o sempre: há quanto tempo não toma a vacina contra o tétano? Ninguém se lembra da última vez que se levou tal coisa, foda-se! Pode-se ter uma vaga ideia mas nada mais além disso. Depois é como tudo, há que ter sorte com o médico e respectivo mood, e em princípio, é só isto que tem que se fazer para se abrir uma conta no banco. Resumindo, inscrição no médico, papel passado que dá direito ao número que por sua vez dá direito a trabalhar e fazer uns descontos decentes, com guita vem a casa, com esta pelo menos uma torneira e consequente factura de água e então aí sim, uma conta no banco. Estes gajos são bué esquisitos ou sou só eu que estou acostumada a um país burocraticamente muito mais simples, foda-se? Ainda vocês se queixam.

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