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Sou uma criatura dada a coisas a coisas do cacete. Já aqui disse que ter uma memória assim mais ou menos, não é para mim. Acho muito giro e não sei quê, mas pá, não vale a pena. Sou daquele género de pessoa que anda sempre de agenda atras, cujos melhores amigos são os post it e se querem saber, até no espelho da casa de banho eles estão colados. Se vou às compras sem lista, o mais certo é termos que ir comer fora porque me vou esquecer do ingrediente principal, se preparo a marmita para levar para o trabalho, deixo-a algures pela casa, se não ponho alarme não tomo os medicamentos, se não informo o gajo esqueço-me das consultas, ando sempre com as mãos cheias de cruzes que desenho com caneta mas que depois não sei a que se referem, deixo as chaves na porta do carro e vou-me embora, sou das que fecha a porta e só depois se lembra que as chaves se calhar ficaram em casa, nunca sei os códigos dos cartões e sei lá eu o número do meu bilhete de identidade, nunca sei o nome de ninguém e datas então nem se fala. Quero acreditar que isto acontece porque o meu pequeno cérebro está no limite e então apaga merdas pouco importantes para dar lugar a informação realmente útil. Sempre fui assim e se fosse na conversa da minha mãe, desde os oito anos que tomava "comprimidos para a cabeça, porque tu, Filipa Maria, tens a cabeça pior que a minha" e nem as solhas que levei me fizeram ter melhor memória, nem sei como ela contava que isso acontecesse.
Mas de vez em quando o milagre dá-se e verifico que afinal posso respirar, sou uma pessoa normal, pelo menos nessas alturas. Basta-me sentir um cheiro para de repente, viver o que vivi na altura em que esse mesmo cheiro aconteceu, basta-me sentir o perfume que usei quando me casei com o pai do meu filho para sentir de novo borboletas na barriga, basta-me sentir o cheiro dele para sorrir, cheiro o quarto do meu puto e lembro-me do pânico que senti quando vi o resultado do teste. Também penso como vai ser bonito para este já pequeno leitão sair, mas ainda falta bué, se não me falta a memória. Vou na marginal e quando sinto o cheiro do mar, lembro-me que quando por ali parava mais, era feliz, mas de uma maneira que não queria voltar a ser, porque ninguém pode ser verdadeiramente feliz quando opta por se partilhar com quem não está para partilhas. Cheiro a comida da minha mãe e sinto-me protegida, sinto-me lá atras, quando um prato de batatas fritas me fazia a gaja mais feliz do mundo. Entro no carro e o cheiro lembra-me as muitas viagens que faço nele, a sensação de liberdade que sinto quando conduzo e como isso me relaxa. O meu gel de banho que cheira a noitadas solteiras, o meu shampoo que cheira a água do mar, o hidratante que cheira a amor.
Como o meu nariz é fantástico com toda esta sua memória fantástica que me faz reviver coisas fantásticas e não sei se repararam ou se estavam diatraidos, mas lá mais em cima disse : "(...) quando me casei com o pai do meu filho (...)". Lamento não vos ter informado mas esqueci-me...

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10 comentários

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De Ana Rita a 14.06.2013 às 15:05

A memória emocional é tramada, boa mas boa :) São campainhas atrás de campainhas mesmo que se passem anos a fio. Excepto quando é má, mas não dá para seleccionar!
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De Anónimo a 14.06.2013 às 18:10

"este já pequeno leitão sair" fartei-me de rir...
Então o puto é o pequeno leitão... hahahah
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De onónimo a 14.06.2013 às 18:18

ah, Filipa! Esposa, Mãe, tens sido uma agradável caixinha de surpresas para quem só Te conhecia à distância dos teus textos!

Beijo!

(caraças, não chames pequeno leitão a esse nobre varão que há-de ser o João! e não esqueças que até aos 14 são sempre fonte de preocupação, e dos 14 aos 20 de absoluto pavor de ansiedade!)
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De Isa a 14.06.2013 às 23:57

"porque ninguém pode ser verdadeiramente feliz quando opta por se partilhar com quem não está para partilhas."
Gamei, outra vez...
cheers, garouta.
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De Filipa a 15.06.2013 às 16:17

Gama praí, piquena :))
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De Filipa a 15.06.2013 às 16:18

Foda-se!, que animador que és!!
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De Ana a 17.06.2013 às 18:56

Neste post, senti-me tããããão representada: é exactamente o que me acontece com os cheiros, apesar de a memória ser uma treta para tudo o que sejam nomes, datas de aniversário e até números de telefone, que, antigamente, decorava com uma facilidade brutal, como se correspondessem aos nomes das pessoas.
No meu caso, estou convicta de que foi a entrada nos 40 que arrasou de vez com a memória.
Ou isso, ou uma epidural que levei há 2 anos, para uma operação de 4 horas... também pode ser! :-)
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De Ana a 18.06.2013 às 15:04

E, numa clara demonstração de como as «little grey cells» estão desgastadas, faltou a reacção à novidade dada em jeito de casualidade: Parabéns!
Agora só falta o relato completo, porque as reacções às sugestões (que terão existido, certamente) de cumprimento das tradições, mais ou menos pirosas, ligadas ao casamento, serão dignas de retrato fiel no blog.
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De Filipa a 18.06.2013 às 17:45

Credo, mulher! Estou quase a fazer 39 anos, tu não me digas que isto ainda vai piorar!!
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De Ana a 18.06.2013 às 18:15

Eu mencionei que tinha estado sob os efeitos de uma epidural durante 4 horas (a memória está mesmo mal ;-))? Pode ter sido isso... ou não...
Don't worry: «diz que» os 40 são os novos 30!

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