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Dúvidas Cor de Rosa

Um blog extremamente fofinho e quase sempre zen.

Dúvidas Cor de Rosa

Um blog extremamente fofinho e quase sempre zen.

(diz que agora é assim que se diz)

Novembro 02, 2016

Filipa

 

A pessoa sai atrasada de casa com um carregamento de filhos que nem é bom. A pessoa espeta com malas, malinhas, lancheiras, carrinhos, fraldas e o caralho para dentro da mala e a pessoa repara que acordou vai para mais de duas horas e ainda não disse outra coisa que não foda-ses e caralhos. Para dentro, claro, porque a pessoa sabe que os seus mini papagaios em tudo atentam e tudo repetem até à puta da exaustão. A pessoa enfia os seus mini mes nas cadeiras, aperta cintos, está quieto, João, não enfies os carros na boca da tua irmã, Luísa, pá, deixa estar a porra das meias, não, não podes lamber a sola dos sapatos, estás aqui estás a fazer anos e depois riem-se muito e a pessoa liga o rádio e lá sossegam, nada resulta melhor do que a música bem alta. A pessoa respira fundo e começa a marcha, foda-se, estou tãããããão fodida, penso, enquanto peço aos santinhos que o trânsito na segunda circular esteja a fluir como jamais fluiu até aqui. A pessoa vê que vai acima dos 50 km/hora mas lembra-se que ali, naquele sítio e em 25 anos, nunca viu polícia algum. Os miúdos cantam e dançam, ahhhhhhhhhh, como adoro esta alegria matinal, a boa disposição, os gritos e gritinhos, estou absolutamente maravilhada. 
A pessoa chega ao fim da recta, vê umas motitas foda-se, já não me bastavam os cabrões dos ciclistas, agora tenho de levar com os motoqueiros ou o caralho. A pessoa é muito mal-educada quando para para reflectir, mas só o consegue fazer assim. Quando não aventa nenhum palavrão, as reflexões saem-lhe do avesso. A pessoa é obrigada a desacelerar, até porque está a entrar numa rotunda mas quando repara melhor vê uma figurinha à sua frente, a fazer gestos suspeitos. Foda-se, qué queste caralho agora quer ou o caralho? e mentalmente visualiza uma ic19 completamente parada e uma segunda circular pior ainda. A pessoa percebe, com alguma dificuldade -nunca conseguiu decifrar muito bem os gestos da autoridade- que é para parar mais à frente. Mais à frente onde, caralho?, no meio da rotunda, não?? A pessoa para à entrada da tal rotunda e é se quer. O agente chega, a miúda chora porque a pessoa baixou a música e o puto aos gritos a dizer que quer atum. Obrigadinha, hãn? [piscar de olho para o céu].

Bom dia, senhora condutora, ouço, bom dia é mas é o caralho, só penso, enquanto pergunto o que é que eu fiz? É dito à pessoa que vinha em excesso de velocidade, a mais 30km do que era suposto, QUERO TUM COM PÃÃÃÃÃÃO!!!!!!, cabrão do puto que não se cala e a pessoa vê que Luísa se calou devido ao facto de estar demasiado ocupada a lamber o seu ranho. Então passe a multa, pronto. A pessoa não quer mesmo começar às caralhadas à autoridade, começa a transpirar e a sentir os nervos a chegarem-me ao gorgomilo. Enquanto passava a multa: não tem Facebook? a pessoa pensa han?! e fica a saber que no Facebook existe quem avise das operações stop tenho de começar a ir ao face antes de sair de casa, queres ver? A pessoa não paga a multa na hora porque repara que se esqueceu do cartão em casa puta da minha vida mais o caralho ca foda esta merda toda e interioriza todas as indicações dadas por forma a que consiga fazer o pagamento atempadamente dos 150 euros.

A pessoa limpa o ranho à miúda, calça-lhe os sapatos, dá uma bolacha ao miúdo TUUUUUUUUM, QUÉIIIIIO TUM!!! a pessoa sente que o seu coração começa a descompassar e que as veias e artérias começam a dar de si. Sim, tá bem, tarda nada dou-te o tum enquanto entro no carro de novo.

A pessoa respira.

Dá a volta à rotunda e sobe a estrada que acabou de descer a velocidade excessiva para voltar a casa buscar o cartão multibanco. A pessoa pondera deixar o carro em qualquer lado e ir de metro para Lisboa: nem que o tempo volte para trás a pessoa chegará a horas ao seu destino.

A pessoa sente um flash.

A pessoa percebe que para cima também havia radar. 

Moral do sucedido: pessoa acha divertidíssimo contar merdas do seu dia-a-dia porque acha que alguém irá dar um peido por elas. 

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