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O meu João tem olhos azuis, uma das coisas que herdou do pai. Azul paciência, azul felicidade, azul João. Faz hoje um ano que este pequeno furacão me obriga a parar, escutar, olhar para os lados e só depois seguir em frente. Como eu, não tem muita paciência para coisas pouco práticas: se quer ir por ali e se ali está algum obstáculo, passa-lhe por cima, não há cá tempo a perder com birras ou lamentos. Como eu, faz questão de mostrar de quem gosta e de quem não gosta. Fretes, só quando é hora de ir para a cama, como eu. Nasceu antes do tempo e ainda hoje não gosta de estar muito tempo no mesmo sítio. Como eu, pois então. Ainda não tinha nascido e já eu adivinhava as dores de cabeça que por aí vinham; de repente tudo é potencialmente perigoso para este puto cuja maior característica nem sequer são os seus olhos carregadinhos de um azul curiosidade, azul João. A descoberta tira-lhe o sono, tira-me o ar e o coração do sítio, outra coisa que aprendi; o meu coração não é fixo, ora está sossegadinho apesar de alerta, ora está pendurado no lado de fora do peito, a respirar fundo no meio do descompasso que os sustos que este fulaninho lhe prega. Neste momento tenho todas as esquinas protegidas, gavetas e portas com fechos de segurança, as tomadas tapadas, fios escondidos, casa ampla, brinquedos inspeccionados os pormenor, lençol bem preso nos pés da cama, sem almofada, colchão da cama dele colocado o mais baixo possível, e só o deixo estar depois de ver se o que tem ao alcance é susceptível de o magoar de alguma forma. Ser mãe é mesmo isto, não se iludam, é ser uma paranóica da segurança e ser gozada por isso. O pai diz que exagero e que se o puto for uma florzinha de estufa, a culpa é minha. Sabe lá ele o que é ser mãe. A palavra responsabiliza, pesa, dói. Ser mãe dói. Ser mãe deixa negras enormes e permanentes. Ser mãe é sofrer de contracções crónicas. Ser mãe traz dores de alma. Ele chora e o meu peito aperta-se até quase não deixar passar o ar. Ele adoece e eu fico de rastos. Ele ri-se mostrando os dentes mais fofos de sempre e o meu mundo fica azul, azul João. Pudesse eu protegê-lo sempre de tudo, levá-lo ao colo quando se cansa das caminhadas, ajudá-lo quando não alcança as coisas, embalá-lo quando tem dores, dar-lhe beijinhos quando se magoa. Por mim andava com ele às costas, com ele envolto naqueles panos africanos e coloridos e só saía de lá em casos extremos. Parece que não pode ser, tenho de o deixar viver, bolas, ninguém me disse o quanto isto ia custar.
Faz hoje um ano que tive de o deixar nascer e a minha vida mudou. Demorei muito a encaixar a ideia de ser mãe, como mãe se ainda sou uma miúda? Como mãe se ainda tenho tanto que ser filha? Sucede que só após ter sido mãe, soube ser filha. E mulher. E pessoa. E isso só o meu João, que cheira a sonhos e dias frescos, cujos olhos me põem o peito no sítio, coração alinhado e pulmões escorreitos, cujas festinhas no meu cabelo nos embalam em dias mais-que-perfeitos, que ri muito, sempre, em gargalhadas que me fazem chorar de tanto rir, às tantas rimos os dois só porque o outro está a rir muito, isso só o meu João conseguiu. Num ano e picos.
Imaginem o futuro. 

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