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Das actualidades

por Filipa, em 30.05.18

O meu pai morreu num sofrimento atroz. 

Só eu sei -porque o acompanhei até ao fim- das dores agonizantes que não o deixavam parar um segundo que fosse, naquela cama que rapidamente se tornou imensa para o seu definhado corpo.

Fui buscar a capacidade de aguentar alguma dor ao meu pai. Fazer-me forte significa não dar preocupações aos outros, significa mostrar que está tudo bem para que seja apenas eu a sofrer. Maneiras que quando o via cheio de dores, sabia que eram dores à séria, daquelas que fazem desejar a morte.

O meu pai nunca foi designado, na verdadeira acepção da palavra, um doente terminal. Ou às tantas, foi o meu subconsciente que tapou os ouvidos a tamanha obscenidade. O meu pai nunca esteve internado onde estão internados os doentes oncológicos, esteve sempre em Medicina Externa. O meu pai nunca teve o que chamam de cuidados paliativos. O meu pai estava a morfina, dada em doses cirúrgicas porque mais implicaria, por exemplo, problemas respiratórios, e se ele estava com uma pneumonia da qual não se conseguia livrar devido à fragilidade dos pulmões causada pelo cancro que tinha, não convinha arriscar.

Vi o meu pai em apneias e começou, também a mim, a faltar-me o ar. Corri por aqueles corredores da morte a pedir ajuda e a enfermeira ajeitou-lhe o tubo do oxigénio. Fomos fazer um TAC e não foi possível; a impossibilidade de se manter estático e direito era de tal forma que ainda hoje ouço os seus gritos de dor que ecoavam por aquele hospital afora.

Acontece que, entre tanta coisa que me faz ser isto que sou e que lhe fui buscar, uma das mais vincadas, é a esperança. 

A esperança nunca me abandonou. Tanto que dois dias antes dele falecer, perguntei ao médico quando é que o podia levar para casa. Sempre acreditei, como sempre acredito, que as coisaa nunca podem ser tão más quanto aparentam ser.

Tive esperança desde o primeiro minuto, quando o médico disse que era estadio IV.

Eu, para mim: "Ok. Está no pulmão esquerdo. Corta-se uma beca e fica fino. Ou um transplante, também pode ser".

Tive esperança quando o dr me disse que afinal estava também na traqueia.

"Na traqueia? Pronto, vai ter de andar com aquele buraco na garganta mas que se lixe"

Tive esperança quando afinal já tinha chegado ao fígado, ossos e cérebro. Na minha cabeça, a medicina haveria de ter algo mágico que o pusesse fino.

Tive esperança quando o vi levantar-se a custo da cama para dar dois passos, quando no dia seguinte o vi de fraldas porque já não conseguia ir à casa-de-banho, daí a uns dias deixou de comer e eu sempre ali, a negar, não, isto vai melhorar, calma que esta gente que adora greves e falar torto para quem está desesperado, sabe o que anda aqui a fazer e isto tarda nada dá aqui uma reviravolta do camandro que ainda vais andar comigo ao colo, enquanto o convencia a beber sumos de fruta.

E o meu pai olhava pela janela, felizmente ficámos na cama mais junto a uma, e não me respondia. Não sei se por alguma inconsciência ou se se estava apenas a despedir da vida, mas lembro-me dos seus olhos, grandes e vivos, a querer olhar mais além para que de alguma forma, quando fosse, não lhe ficasse cravado na alma a pateta sonhadora da filha ou aquela merda daquele hospital. Os dias estavam horríveis, foi em Dezembro, dias de chuva e cinzentos mas lá estava ele, da única maneira que conseguia estar algum tempo sem sentir dor, que era praticamente sentado, a olhar para a rua, e o que eu não dava para lhe saber os pensamentos.

Tive esperança até no dia da sua morte, eu que recorro várias vezes a Deus, entrei na capela do hospital para ter uma conversa franca com ele, e lhe digo que assim não podia ser. Que se era para aquilo, que o levasse, mas que se era para melhorar, que se fizesse à vida que aquilo tudo estava a dar cabo de mim.

Do hospital a minha casa eram 15 minutos de carro que nessa noite os fiz de lágrima no olho.

Quando estaciono e desligo o carro, toca o telemóvel. Percebo que é do hospital e nem nessa altura perdi a puta da esperança de que alguma coisa de positivo tinha acontecido.

 

"Filipa, como foi uma pessoa presente durante o internamento do seu pai, achei que lhe devia telefonar."

O seu pai faleceu.

 

 

Assim. 

 

Ainda não passaram anos suficientes para que o escreva sem dor, acho que nunca vão passar, mas desde esse dia em que metade de mim morreu e foi a enterrar com ele, que e acredito que por algum egoísmo meu e a tal da bendita da esperança, a eutanásia seria coisa que quisesse que o meu pai desejasse.

Com aquela esperança toda que pautavam os meus dias e me empurravam para a frente, perdê-lo por sua decisão ficando talvez para trás a hipótese das coisas correrem bem, era um risco que se calhar não queria correr.

É um tema demasiado caro para mim, com tantas variáveis que não sou capaz, nem nunca serei capaz, de efectivamente estar de um lado da equação. 

 

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26 comentários

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De Genny a 30.05.2018 às 19:27

Para a semana irá fazer um ano que a minha mãe faleceu. De cancro, esse maldito. Do dia três ao dia em que faleceu entrou num sofrimento atroz. Não consigo apagar da memória o pedido de ajuda dela e não conseguir fazer nada para aliviar as dores. 
Sou a favor da eutanásia, porque não há necessidade de passar por isto.
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De Filipa a 01.06.2018 às 08:34

Um abraço e força. 
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De a 31.05.2018 às 11:43

Filipa, tenho um montão de defeitos não sou nada perfeita...um dos meus maiores defeitos é colocar-me facilmente no lugar do "outro". Outro dos defeitos é o de me faltarem as palavras como agora neste exacto momento. Deixo-te apenas e sem mais palavras um forte e sentido abraço.
Um grande beijinho.
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De Me a 31.05.2018 às 14:37

Para mim nunca foi difícil o lado da equação. Estou do lado daquela em que cada qual tem direito a escolher por si.


Felizmente, para mim, para ela, a minha mãe conseguiu escapar um bocadinho a esse final doloroso (não que não estivesse com dores e a morfina), mas para o que assisti com outros, a situação dela até foi "um bocadinho menos má". 
Há casos e casos.
Desde Novembro de 2016 que sabia que era uma doente terminal. Tb tinha alguma esperança, mas mto realismo.
Mas a eutanásia nunca se teria aplicado a uma doente como a minha mãe (acredito eu), felizmente não chegou a isso.
Mas não é assim com todos. 


Há pessoas ligadas a máquinas anos a fio. Que tipo de vida é essa para os seus entes queridos?
Querias que os teus filhos te vissem assim durante anos? Que não pudessem fazer luto e seguir em frente?
Tudo para quê? Pela, na maioria dos casos, vã esperança de que um dia alguém te conseguisse acordar? Mesmo que vários anos já se tivessem passado?
Lá está, acima de tudo, defendo o direito à escolha. E a quem fica, resta respeitar isso.
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De Filipa a 01.06.2018 às 08:32

A questão aqui não passa por dar nem ter razão. 
Passa pela opinião própria e pela aceitação de outrem.
Apenas e só. 
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De Me a 01.06.2018 às 09:44

Sim claro. Precisamenge por isso acho q cada um de nós deveria poder decidir sobre a sua vida, ainda que por vezes, para quem fica, essa escolha possa não ter sido a melhor.
Mas termos a hipótese de escolher caramba. Um moribundo, que há que tratar as coisas pelos nomes, tem o direito de querer aliviar a sua dor  (e a dor que tb sente ao achar que causa dor aos outros). É a minha opinião claro.
O facto de tornar a eutanásia legal não quer dizer que todos os terminais tenham de fazer uso dela. Mas deveria poder fazer quem assim o desejasse.


E abracinho apertado (que me escapou no comentário acima)
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De Filipa a 01.06.2018 às 10:58

Mas eu sei que o facto de legalizar a eutanásia, o seu uso não seria banalizado, tal como aconteceu com a despenalização do aborto.
A dor que quem fica, passa, devia dar direito também a qualquer coisa que a aliviasse, é o que te digo.


Abracinhos.





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De fã nº1 que era a nº2 a 31.05.2018 às 16:09

Minha menina, é tão difícil ler isto sem chorar. Lamento tanto por ti, pelo teu pai, por quem passou e passa por isto. Nunca saberei o que se diz nestes momentos, só me resta deixar-te um beijinho. És tão forte.
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De Filipa a 01.06.2018 às 08:32

Um beijinho pra ti, que me deixas sempre palavras tão lindaa que na maior parte das vezes até acho que não as mereço. 
Obrigada.
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De Be a 31.05.2018 às 16:55

Ao fim de 7 horas da entrada na urgência, foi-nos dado um diagnóstico e o médico disse-me taxativamente que tínhamos de pensar em cuidados paliativos. Durante os 12 dias que lhe segurei a mão, nunca perdi a esperança... Também não consigo ter opinião. Um abraço, Filipa
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De Filipa a 01.06.2018 às 08:33

Um abraço ❤
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De Troll a 01.06.2018 às 10:18

Dia 31 de Dezembro faz 27 anos que a minha mãe faleceu também vítima de cancro, tinha 48 anos... 
Revejo-me completamente nas suas palavras e também ainda não consegui colocar-me em um lado da equação...
Cândida
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De Filipa a 01.06.2018 às 10:59

Beijo grande e muita força. 


A malta cá se agarra ao que se passou em conjunto e lá vai empurrando os dias.


Força. 
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De Isa a 01.06.2018 às 10:18

Defendo acerrimamente a despenalização da eutanásia, mesmo sabendo que talvez me faltasse a coragem para - se um dos meus que já partiram vitimados por doenças tão dolorosas, e caso a dita estivesse aos seus alcances - presenciar esse pedido. Ou se eu mesma teria essa coragem, se (ou quando) no lugar deles. 

Contudo, sei, seguramente, que gostaria de ter esse fim como opção. 




Texto...   


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De Troll a 01.06.2018 às 11:22

Filipa, o que eu gostava agora de lhe poder dar um abraço. Ao ler o seu testemunho chorei, revoltei-me e lembrei-me que também eu passei por isso, também o meu pai faleceu de cancro no pulmão estágio IV, também eu pedi a Deus para que ele não sofresse mais e o levasse e sei que o meu pai também pediu...pediu a Deus e pediu-me...  Beijinho Grande. 
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De Filipa a 01.06.2018 às 15:57

❤❤❤


Porra.
A vida dá-nos com cada cacetada no estômago...
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De Pequeno caso sério a 01.06.2018 às 14:46

Li o teu post logo assim que publicaste.Tenho tentado arranjar as palavras certas para comentar . Não havendo, deixo - te estas.

De todas as vezes que foste corajosa e deixaste que víssemos a outra Filipa,esta foi a que mais me comoveu. 
Presenciar o fim de quem gostamos , sobretudo se for de uma forma lenta e dolorosa,  é terrível. Ter a frieza necessária para os deixar partir não é fácil e uma vez que partilhaste a tua experiência para "justificar " a tua posição,  faço o mesmo.


47 anos. 
O meu cunhado tinha 47 anos quando deixou de ser quem nós conhecíamos. Sempre saudável e de bem com a vida uma "dor no pescoço" que teimava em ficar levou - o ao médico. Diagnóstico : esclerose múltipla. Daquelas bravas e que em menos de um ano o deixaram preso num corpo que já não era o dele. Alimentado por uma sonda. Incontinente. 
Mas a puta da doença tinha requintes de malvadez: esteve o tempo todo consciente. 
Quando nos aproximávamos da cama para lhe dar um beijinho na testa , as lágrimas escorriam - lhe. Creio que diziam para o aliviarmos daquele sofrimento e de quem dele cuidou até ao fim.


Por isso estou bem ciente em  qual lado da equação me poria caso fosse necessário : do lado de ter a possibilidade de escolher partir com dignidade, se assim o entendesse. Não ter essa possibilidade é de uma insensibilidade atroz. 


Pega lá um abraço sentido já que me obrigaste a mexer numa recordação que me é tão dolorosa e da qual fujo a sete pés de tão caguinchas que sou.







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De Filipa a 01.06.2018 às 15:56

Minha pequenina preferida...


Abraço tão forte. 
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De Quarentona a 01.06.2018 às 15:18

Sei que vou parecer fria e cruel no que vou dizer, mas a única coisa que dou graças a Deus na morte do meu pai, foi ter sido fulminante. Num minuto estava bem e no seguinte estava morto. Acho que não aguentaria ver o meu pai a morrer lentamente e sei que para ele também seria o pior destino. Todos os dias peço a Deus para quando chegar a minha hora, que não seja hora, mas sejam segundos e se Deus não me conceder essa benesse, que seja então a lei dos homens a concedê-la.
Abraço apertado, Pipinha.
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De Filipa a 01.06.2018 às 15:56

Abraço, meu bem.


Não falo com Deus sobre essas coisas, não vá Ele começar com ideias. Mas houve uma altura em que lhe pedi para ir no lugar do meu pai.
Depois percebi  que estava a ser egoísta, não queria sofrer nem ver sofrer, que os meus filhos precisariam de mim e a vida seguiu o seu rumo.
É lixado.

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