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Cat story

por Filipa, em 05.09.13
Tenho uma gata, não sei se já vos disse, é provável que não, uma vez que a gaja é a única rafeira rafeira cá em casa e eu não quero passar a imagem de pessoa que adopta gatas rafeiras e abandonadas, que escolhem o quentinho do motor do carro dessa pessoa, para pernoitarem. Tantas noites até que vencem uma pessoa pela persistência e essa pessoa acaba por levá-la para casa. Tenho uma gata desraçada que é a única que não tem pedigree, é feia como o raio, má como as cobras, arisca, escorregadia, fria, traiçoeira, mas pronto, trouxe-a, temos de levar com o pastel, nada a fazer. Somos muitos cá em casa. Entre cães, gatos, filhos e maridos, somos cerca de sete. Perdão, seis, porque a gata, a Ella, já agora, desaparece e não há cá convívio para ninguém. Não sei se devido à sua condição, Ella nasceu para ser pobre e não há volta a dar. Ella dorme na casa de banho, no chão perto do cesto da roupa suja. Ella bebe água pela torneira do bidé. Ella não gosta da comida de marca xpto que compro no veterinário e que custam horrores. Não. Ella gosta de uma ração que encontrei no Lidl e que custa aproximadamente três euros. Ella não gosta do arranhador com alguns andares, prefere afiá-las no cesto de roupa suja, mesmo a saber que se a apanho, está feita. Ella só gosta de comida do Lidl, sol, de dormir e da música que sai do móbil pendurado no berço do João. Acho que desde que a trouxe para casa lhe fiz cerca de três festas que, olha que engraçada coincidência, calharam a acontecer aquando as suas visitas ao veterinário e aproveitei, como quem não quer a coisa, para lhe passar a mão no pelo. E já lá vão dez meses.
O sítio preferido para a Ella estar a fazer nada é no parapeito da janela da sala. Até ao dia em que o meu Guedes descobriu que aquele era um poiso muito fixe para se fazer coisa nenhuma. Ora, estava Guedes muito concentrado no seu ritual diário quase obsessivo que é o de lamber seu pêlo, à janela, enquanto se aquecia com os últimos raiozinhos de sol do dia, quando Ella sai desencabrestada da casa de banho por ter sentido, talvez, que algo de estranho estava a suceder em seu trono. Ah, estamos a falar de um sétimo andar, ok?
Nisto, já estou eu à porta da sala, mama de fora, João aos gritos que é rapaz muito calmo mas há limites e não lhe tirem a comida da frente que rapidamente se transforma em pequena vuvuzela. Ella no chão, mesmo debaixo da janela, a fazer cálculos mentais por forma a descobrir o melhor local para saltar para o parapeito.
Guedes lambia-se.
Eu, morta por começar aos gritos porque estava a adivinhar o cocó que estava para acontecer, mas sem poder com medo de assustar o gato.
Guedes lambia-se.
O meu cérebro procurava soluções enquanto os meus olhos pesquisavam o local à espera de encontrarem ou um machado, ou serra eléctrica, ou bisturi ou algo igualmente dissuador de modo a que a gata se sentisse ameaçada e desistisse do seu intento.
A Dior?, pensei eu, onde anda aquela caralha?, a espalha brasas aqui do sítio. Se a fulana aqui estivesse, pequeno Guedes decerto a ouvia e tranquilamente descia. Ou Ella estaria agarrada às orelhas de Dior. Ao longe ouço o ronco de Chanel que quando não está nisto, está a comer ombreiras e rodapés. Qualquer uma das alternativas era viável, menos a que estava a adivinhar. Mas Dior estava na rua, com seu enconado dono. Isto era entre mim e esta ingrata que devia andar comigo ao colo por lhe ter dado um lar doce e quente. Dou um passo e Ella olha. O azul dos seus olhos enche-se de um negro profundo, põe as orelhas para trás e sobe para o parapeito.
Pequeno Guedes lambe-se, pára e cheira o ar. Pausa. E continua a lamber-se. 
Pouso João no carrinho e vou a correr para a janela mesmo sem saber o que fazer quando lá chegasse.
Vejo Ella a mandar-se para cima de pequeno Guedes, abocanhando o seu farfalhudo pescoço com sua vingativa boca. Ele assusta-se e lança-se em voo....para o lado errado da janela.

Ella, no parapeito, lambe uma pata, pára por uns momentos, cheira o ar e retoma a tarefa.

E eu de joelhos na sala, a chorar, a soluçar tanto que as palavras ficavam presas na garganta. Morria ali, sufocada, naquele chão, a chorar pelo meu Guedes se o meu gajo não tivesse entretanto chegado.

Esqueci tudo o que se passou depois. 
"Acordo" já na rua, por baixo da minha janela, aos gritos a chamar pelo gato, o meu bebé cheiroso, o meu gajo com o João ao colo, e passadas duas horas nisto, com vizinhos e desconhecidos a ajudar, descubro um Guedes a lamber-se, no recato de um buraco cheio de merda, preocupadíssimo com a sujidade em seu pêlo.
A partir daí, mais pânico. Deixar João com avós, procurar um hospital veterinário com urgência 24h (com isto tudo era uma e pouco da manhã), não mexer muito no pobre bicho cuja única preocupação era tirar as ervas e ervinhas do seu pêlo e no meio de todo este nervoso corre corre, Ella, impávida e serena, observa os nossos movimentos no seu poiso de sestas preferido, o cesto das cebolas, e parece dizer, com toda a sua altivez característica "não percebo esta agitação toda! A culpa é dele, não olhem para mim! Eu disse-lhe sai da frente, Guedes!"

Chegamos quase ao raiar do dia, muitos euros depois e sem Guedes, que ficou internado em observação, com as patas em mau estado, com febre e com a hipótese de algo mais grave nas costelas/pulmões.

Desde então que não sou capaz de olhar sequer para a gata. O meu gajo levou-a para casa da mãe e não tenho a mínima vontade de a ir buscar.
Hoje fui buscar o meu Guedes e parece-me mais lindo e mais paneleiro que nunca e relembrando a história do Pitt bull que matou o bebé, animais com maus instintos, para mim, deviam ter todos o mesmo fim e garanto que não passa por estar ao parapeito da minha janela a fazer ronrom às borboletas nem perseguir moscas, depois de encher a barriguinha e cagar em areia com aroma de alfazema.
Estou melhor mas ainda me farto de chorar e ainda me dói o peito, quando olho para o Guedes e penso a sorte que ele teve, na sorte que eu tive, apesar de tudo.

Ainda não sei o que vou fazer com Ella, mas dificilmente volta a entrar nesta casa.

The end.

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28 comentários

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De Mariam a 05.09.2013 às 18:25

Adorei este post, já andava preocupada se por acaso terias emigrado para outro blog.

Eu ganho-te em quantidade, eventualmente não em qualidade: um marido, quatro filhos, duas gatas e dois passarinhos - somos dez.

Uma das gatas é assim como a Ella. Temos que a ter separada da outra, senão mata-a. Tenho a certeza disto. A veterinária já nos disse que a maioria das pessoas que têm gatos assim põe-nos à estrada.

Mas os miúdos adoram-na. E nós também, na verdade.
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De Isa a 05.09.2013 às 18:55

super vívido o post, gostei muito, apesar de sentir daqui o teu cagaço, de apenas conseguir imaginar a tristeza e de ter conseguido ver a cena toda. Mas talvez seja o melhor remédio, apesar de tudo... e os nomes dos gatos são demais :D
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De Palmier Encoberto a 05.09.2013 às 21:13

Depois desta aventura, acho que o teu Guedes já merecia um skate... :DDD
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De A Mais Picante a 05.09.2013 às 21:55

Eu era menina para por a gata com dono. Já tive um cão mau, ia passea-lo a desoras, de açaime e ainda assim a rezar para que não aparecesse nenhum outro cão com que implicasse. Acabámos por ter de o abater quando se virou à minha mãe, que acidentalmente se aproximou demais enquanto comia. Por acaso eu estava lá, era a única pessoa a quem obedecia cegamente.
Mas há muito por aí quem diga que não há animais maus, se aquele bicho não era mau, vou ali e já venho.
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De Mirone a 05.09.2013 às 22:35

E é por isso que no chateau Mirone só há peixinhos.
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De Sofia a 05.09.2013 às 22:58

Já passou.

As melhoras do Guedes. 7.º Andar e sobreviver é mesmo um gato sortudo.





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De Mariana B a 06.09.2013 às 01:07

Não pude deixar de comentar este tema. Tive um gato que, ao fim de 4 anos cá em casa, começou a atacar-nos. Percebíamos que lhe custava viver num apartamento, queria sair de casa e essa era uma das causas que levava a deitar-nos as unhas e rasgar as pernas com feridas bem profundas. A minha filha estava a acabar Veterinária e usou os seus conhecimentos pessoais e de especialistas em comportamento animal: vieram medicamentos de Inglaterra, ele serenou mas após o desmame voltou a tornar-se perigoso. A melhor solução foi enviá-lo para uma quinta no Ribatejo onde, após um período em que não comia e ficou muito magrinho, foi adoptado por um padre...Isto tudo para dizer que, tal como as pessoas, há animais que podem "pirar" ou ter mau feitio e que há que ter muito cuidado com a nossa segurança ou de algum Guedes...E neste caso até houve envolvimento de vários técnicos de saúde animal para resolver a temível faceta do meu Wally! Voltei a ter uma gata residente cá em casa mas ficou sempre latente um olhar muito apurado para detectar estados neuróticos exagerados...As melhoras do Guedes!
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De Ana Magalhaes a 06.09.2013 às 10:57

Olá,
Percebo perfeitamente a tua situação. Uma pessoa faz bem e alguns animais parecem não chegar lá, não entenderem. Deixa me sempre triste. Acho que existem alguns gatos que são decididamente mais animais domésticos que outros.
Tenho dois gatos. O mais velho com 4 anos, cinzento lindo desde sempre, é um gato ingrato e difícil. Não gosta de mimos, não gosta de comer quase nada, e desde pequeno que eu era a pressa preferida dele. Sempre me arranhou, era um ciúme em relação a mim, que até quando falava ao telefone me atacava. Chorei muito, porque gostava dele, era o meu gato. E quando por vezes se deitava ao pé de mim, de olhos meigos eu pensava que era só uma fase.
Dois anos depois, já arranhava menos, mas foi nos dito que era melhor arranjar outro gato porque ele estava farto de ficar sozinho.
Vem novo gato, desta feito preto, porque sempre quis um gato preto. Pequenino e feinho. Muito feio mesmo.
Pensei que o mais velho o ia matar, tão pequena era, mas não. Não matou. Nunca lhe fez mal. Dormiam juntos. O pequeno tornou se logo no meu amor. É que nunca consegui disfarçar que aquele é que era o meu gato. Gato meigo, mimalho, comia tudo, este mundo e outro, começou a crescer em velocidade record, gordinho e cada dia mais bonito e esperto.
Não procura sair de casa, não é amigo de estranhos em casa, segue me para todo o lado, dorme comigo e eu tenho a certeza que no mundo dele, existe o outro gato, existe outras pessoas, mas o sol da vida dele sou eu e eu nunca deixei de gostar do mais velho, mas amor, amor tenho pelo meu gatinho preto.
Dois gatos, a mesma dona, feitios muito muito diferentes.
A minha avó teve 8/ filhos e diz gostar de todos eles, mas há sempre um preferido, um mais meigo, um mais fácil, há sempre um que se destaca, mesmo que gostemos de todos e façamos tudo igual a todos, há sempre um...
Não fiques triste.
Não tinha que ser. Tens o teu Guedes. E todos os outros.
Beijos grandes
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De Mariam a 06.09.2013 às 12:45

:-) filho preferido, não. Eu só tenho metade de 8, e não existe filho preferido. É como nos perguntarem, de uma mão, qual é o dedo que gostamos mais (Sra. D. Filipa, já sei o que é que estás a pensar). Filho mais mimalho, filho mais carente, isso ok.

É incomparável com os filhos o que se sente pelos animais. Esses sim, dão-nos a liberdade de gostar mais de um do que do outro.
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De Izzie a 06.09.2013 às 12:47

Me mate teve uma gata que, depois de anos de amoroso e normal convívio, amalucou e começou a atacar toda a gente em casa. Ele chegou a acordar de noite com a bicha sentada em cima, a mirá-lo e a bufar, e depois trás. Tiveram de chamar os bombeiros para a levar, que não se deixava tocar por ninguém, e coitados dos bombeiros. Levaram-na para abate. O homem sofreu horrores, mas teve de ser. Há dúvidas?

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