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Coisas que minervam III

por Filipa, em 10.09.13
Não sou boa amostra para estatísticas, sabem? Tão depressa me arrasto sobre um rasto de mel, como parto esta merda toda. Gostava de ser meia haste, até porque me farto de sofrer por não o ser, mas não consigo. Entro a matar, a abrir, anda tudo nas horas, não penso nos prós, nos prés, nos ante e nos após, quero mais é que isso se foda. Não sei dar o beneficio da dúvida e parto do pressuposto que toda a gente é culpada até prova em contrário. Eu é que sei, a sabona, e chego a provar, com provas e tudo (ahahaahahahahah também sou bué engraçada mas isso agora não vem ao caso) incoerências e disparates. Revolto de tal maneira as coisas que o pessoal é obrigado a dar-me razão, vencidos pelo meu poder de persuasão. Claro que quando calho a reparar que afinal estou errada, não me vergo, óbvio. Novelas, dramas e por vezes thrillers, são realizados em minha muito fértil imaginação e depois é que são elas para desfazer estes imbróglios todos e às vezes falta-me a paciência. Reparasteís que disse que me faltava a paciência para mim própria, pois reparasteís? Isto só prova que apesar de tudo sou uma pessoa humilde com clara noção das sua desqualidades. Sou, porém, uma pessoa com um apurado sentido de oportunidade, e regra geral aponto-as com alguma inteligência. Para além disto tudo e como se já não fosse pouco, já tive um cu que era um mimo. Conto tê-lo de novo, mas mais lá para a frente que agora não me dá muito jeito. E já tive amigo assim para o normais. Agora só tenho conhecidos e em conversa com um, fiquei a saber que a filha, chavala de 14 anos, já sai à noite. Conversa puxa conversa (que isto de falar com conhecidos é mesmo assim, a gente tem que puxar muuuuuito) e fiquei a saber que a adolescente (yeah, right) também foi a um concerto. Saiu numa Sexta para regressar no Domingo. 
E foi esta conversa que me deixou à beira dos sessenta anos e cheia de bicos de papagaio. Ou então é só a minha natural falta de paciência para coisas com fundamentos de merda. Não consigo ter paciência para os miúdos de agora que decidem crescer muito depressa. Ou para os pais que o permitem e acham que a extrema liberdade é o melhor porque proibir não adianta. Para a autonomia que os tempos modernos lhes dá. Da pseudo emancipação que a falta de tempo e o modernismo dos pais dão a estas crianças cujos calções deixam ver as bochechas do rabo, usam o perfume do Justin Bieber e pintam as unhas de encarnado. Miúdos que saem até mais tarde do que eu, que bebem mais do que eu e que fodem mais do que eu. Crianças que falam do poder sexual que exercem sobre o sexo oposto (Vi isto numa entrevista um dia destes e ia vomitando). Miúdos mal educados e com a sensibilidade de um molho de brócolos. Tudo isto me causa transtorno e eu não me posso transtornar que tenho que produzir leite e transtornos podem impedi-lo. 
Eu sou do tempo em que uma chapada no focinho servia muito bem para proibir e garanto-vos que funcionava. Sou do tempo que se respeitava o outros e se era bem educado. Do tempo em que beber, fumar e sair à noite era só depois de se crescer e tal não prejudicou em nada o meu desenvolvimento nem sou uma adulta com traumas por causa dessa "lacuna". Sou do tempo em que se ia para a escola para efectivamente aprender e não para desfilar as mamas e pernas. Sou do tempo em que se explicava com um cinto o que uma conversa não conseguia. Sou do tempo em que se adquiria um outro estatuto quando se andava à porrada com o fulano que nos tivesse apalpado o rabo. Do tempo em que para se passar a noite em casa de uma amiga, obedecia a um exasperante protocolo que incluía tanto alínea que na maioria das vezes desistíamos do pedido. Do tempo em que os pensos higiénicos coexistiam muito bem com as barbies e diários cor de rosas fechados a cadeado. Do tempo em que se gostava de ser criança e que ninguém tinha pressa de crescer porque ser adulto não tinha graça nenhuma.

Esse conhecido não entende esta minha postura até porque sempre me conheceu rebelde. O que ele não sabe, porque nunca se preocupou em saber, é que esta rebeldia é coisa ponderada. É coisa com rede em baixo. É coisa com plano b. É postura com paraquedas às costas. É inconsequência consciente. Fui uma criança muito feliz, cheia de regras e consequência e devido a isso sou a adulta que hoje sou, um orgulho para os meus.

Tenho um filho, eu sei. Gajo, graças a todos os santos. Ainda faltam muitos anos para ter de me preocupar com estas coisas, mas é melhor começar já a dar uns toques que estas fulanas de agora comem-me o puto em três tempos.

Agora digam-me a ver se sou a única reformada com esta idade:
O facto de os miúdos estarem perfeitamente informados acerca de tudo quanto é considerado "risco", torna-os imunes aos mesmos? Só lhes acontece o que eles quiserem que lhes aconteça uma vez que estão muito informados e tal?

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14 comentários

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De Ana Magalhaes a 10.09.2013 às 10:45

Olá,
Aqui grávida de 28 semanas. De um puto, graças a Deus que as meninas são adoráveis, mas eu com quase 35 anos, acho que já não tenho pedalada para meninas.
Podia pensar em muitas coisas que me tirassem o sono, mas uma das que me tem tirado mais o sono é isso mesmo. Os adolescentes e até antes disso de hoje em dia...
Sim, também eu fui uma rebelde ponderada e agora vejo que afinal eu fui uma totó, porque os miúdos de hoje fazem o que querem e sobras lhes tempo.
As perguntas sobra a escola é quantas negativas tiveste! Eu apanhava se tivesse uma sequer!
Desde a pré, que toda a gente quer saber se tem namorada/o e acham imensa piada ao facto de já terem beijado ou sabe se lá o que mais.
Saem à noite com 11, 12, 13 anos. Na boa. Os paizinhos acham que já sabem tomar conta de si, e ficam descansados por os levarem lá e os irem buscar de madrugada!
Opá, acho tudo um pouco preocupante. E ando um pouco/muito ralada com o meu único descendente e será que ele terá o bom senso da mãe que nunca foi em grupos ou será uma ovelha que segue os outros religiosamente, sejam eles bons ou maus exemplos!?!
Sou muito moderna e jovem e isso tudo, mas... há coisas que me assustam de que maneira e sim sinto me idosa, velha, cansada e por vezes tenho medo de não ter pulso para o que ai vem, mas depois penso, que em alguma coisa sairá a mãe e isso deixa me mais descansada (por 5 segundos)!
Beijos
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De Ana Rita a 10.09.2013 às 11:02

Filipa, está provado que o conhecimento por si só não é suficiente. O acesso à informação previne muita coisa, mas tem muitas limitações. Isto porque, é característica da adolescência explorar, desbravar, descobrir e por mais que eles saibam que A+B=C, vão inevitavelmente transgredir. Com os adultos não é muito diferente, e claro está, depende do adulto, mas as experiências passadas, aquelas que são sentidas na pele e não apenas na teoria que nos é dita, ajuda-nos a fazer escolhas mais acertadas. Atenção, que transgredir é saudável, faz parte do crescimento, mas cabe aos pais, sempre aos pais, definir limites para que a transgressão não fique de tal forma normalizada que eles próprios ficam sem perceber onde começa e acaba a sua própria liberdade. Acho que há adultos, pais de hoje, que tiveram uma educação tão austera, que agora caem no extremo oposto. Ficam fragilizados com a ideia de que estão a impedir o filho ou filha de se divertir, porque a eles próprios não lhes foi permitida alguma diversão.
Por aqui o rapazito só tem dois meses e também já pensei nisso. Não é fácil educar contra a corrente. E pronto, admite, chegou o dia em que tu também dizes "eu era do tempo" :)
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De Ruben Patrick a 10.09.2013 às 11:19

Filipa, o Tio Pipoco mandou-me cá. Diz que é para comentar todos os dias e dizer que é assim mesmo, que tudo está como tem que estar e que gostamos todos muito. Era isto. Acho eu.
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De Filipa a 10.09.2013 às 11:27

Diz ao Pip que não carece. Já cá tenho muitos atrofiados, duvido que alguém te queira ceder o lugar.

Mas obrigada na mesma.
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De Sofia a 10.09.2013 às 12:11

Não acontece nada porque a maioria dos rapazes de hoje são andrógenos e as raparigas têm imensa vontade de mostrar a carne e não sabem bem se gostam de machos ou de fêmeas. Não sabem foder, portanto.
Claro que ainda há pais como deve de ser, valha-nos isso. Mas já vão sendo poucos os que se mantêm fieis à educação "à antiga". Pessoas normais, educam crianças normais.
O excesso de informação não os torna imunes, só os torna menos medricas em relação a tudo. Isso não é necessariamente bom.

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De Pipoco Mais Salgado a 10.09.2013 às 12:12

Filipa, gostei imenso deste post, isto se excluirmos a parte do cinto como argumentário final para resolver um desalinhamento de pontos de vista e o primeiro parágrafo, demasiado extenso para nos contar coisas que já nos contou antes e que pode ser dissuasor da leitura dos restantes parágrafos, o que, em assim sendo, seria desagradável em geral.

No meu ponto de vista, que tende a ser um ponto de vista pertinente a partir do momento em que o exponho, nós, os opinion makers, somos assim mesmo, é que a miudagem aproveita o desgaste que as vidas dos progenitores têm associado. As pessoas vêm maçadas lá do escritório e das repartições, ora porque não sabem se vão ter verba para as férias na República Dominicana, ora porque vão ter que trabalhar mais horas pelo mesmo dinheiro, ora ainda por situações em geral, que se prendem com falta que o Cardozo faz ou com a loura rabuda que tira os cafés lhes ter dito que hoje não podia ser. Esta conjugação de factos faz com que as pessoas cheguem a casa com um baixo grau de disponibilidade para argumentar com jovens fresquinhos, carregados de capacidade retórica que os pais nunca tiveram, porque leram pouco, porque nunca aplicaram em condições a sagrada regra de que nada está decidido antes de tudo estar decidido (explicando, trata-se de a Ritinha pedir para ir jantar a casa da Martinha, que é filha de um engenheiro, logo é pessoa de bem, já que janta fica a ver televisão, já que fica a ver televisão sai um bocadinho à noite para desanuviar, já que sai à noite dorme lá, já que dorme lá, enfim, creio que percebeu o enquadramento da coisa, creio que lhe poderá ser útil nas negociações com o seu João).

Posto isto, o ser mais fácil dizer que sim, alicerçando a decisão em não-evidências como "ela não é dessas", "os melhores amigos também vão e ela pode ficar desintegrada da sociedade", "se eu proibir ela ficará recalcada e um dia destes compra uma UZI e faz uma desgraça lá no Mira-Rio", "serve para ter noção dos limites logos desde muito novinha" mas, na verdade, o único fundamento é "eu prefiro não me aborrecer e pagar por isso".

O problema, Filipa, é que esse plano B de que fala, essa capacidade para fazer de conta que nada é impossível mas afinal sabemos bem onde está o limite, essa rebeldia cuidadosamente ponderada, é um estatuto só ao alcance de alguns e congratulo-me que a Filipa pertença a esse grupo de eleitos que sabe medir o risco e fazer com que todos a validem como a destemida-mor.

Era isto.
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De pipinhaeheh a 10.09.2013 às 12:36

clap clap clap. É mesmo assim Filipa. Eu tenho uma filha e um filho e dá-me calafrios quando vejo certas atitudes dos adolescentes e fico sempre na dúvida, mas os pais desta gente não lhes deu educação, mas eles não veêm como eles saem vestidos para a rua? Mas depois é tal e qual o Pipoco diz, parece que as pessoas têm medo de dizer não aos meninos porque eles podem ficar traumatizados,e se os outros todos podem porque é que eu não posso? E isso começa desde muito cedo, desde os meninos que se atiram para o chão e fazem birra no supermercado porque querem alguma coisa e o paizinho ou a mãezinha dá as coisas para não passar a vergonha de ter toda a gente a olhar para ele. É muito mais complicado levar a nossa avante e dizer então já que fazes birra agora é que não levas mesmo. E eu só acho que estes adolescentes que têm a vida tão facilitada em tudo, vão ser adultos frustrados mas pode ser que me engane. Haja esperença.
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De Filipa a 10.09.2013 às 16:06

Olha agora não posso reiterar/sublinhar/enfatizar/realçar as minhas qualidades?

A culpa é vossa que parecem não reparar nelas.
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De Ana a 10.09.2013 às 16:59

Bom, aqui uma mãe de 2, rapaz com 14 e rapariga com 18.
Concordo em absoluto com a factualidade descrita no post, mas, quanto às razões, julgo que o Pipoco acertou na mouche: na maior parte dos casos, há uma falta de paciência que redunda em permissividade.
Não posso queixar-me muito: a mais velha, já a entrar no 2º ano da faculdade, sempre foi miúda com cabeça e nunca deu conta da minha, sempre soube respeitar um «não», mesmo quando a coisa implicava um amuo de, vá, uns 5 ou 10 minutos.
O pestinha mais novo, mais refilão, ainda assim acata também os limites que a mãe lhe vai impondo.
Liberdade, sim, alguma, com limites, ou seja, lá vou dando alguma folga à «trela» de quando em vez. Mas sempre com obrigações acopladas e, normalmente, para premiar um comportamento/vitória/conquista.
Não tem sido mau, lá vou conseguindo equilibrar os papéis de mãe/pai/confidente... que às vezes tem lados menos bons, como quando o cachopo resolveu confidenciar, há uns 3 ou 4 meses, que tinha andado aos beijos com uma miúda da mesma faixa etária... saiu-me fresco, o gajo!
Quando alguma das criaturas se sai/saiu com uma daquelas tentativas infantis de chantagem «porque é que tu és assim?» ou «os pais do/a .... deixam, porque é que tu não?», ou a mais básica «és má» sempre tive uma resposta muito simples: «faz parte do meu papel, temos pena. Se quiseres vingar-te, é simples: daqui a uns anos tens filhos e vingas-te neles, que foi o que eu fiz» ;-)
Pese embora ache que nestas coisas as companhias deles têm muita influência - e tenho tido sorte com os melhores amigos dos meus - ainda assim, a coisa não é tão difícil como a pintam.
Há que ter alguma firmeza e, depois, paciência para aturar as eventuais birras, ou amuos - e quanto mais cedo se habituarem ao «não», menos birras e amuos se seguem.
Mas faz-se!
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De onónimo a 10.09.2013 às 18:41

tendo nascido velho, manifesto a minha ignorância na problemática da adolescência.

talvez apenas se trate do mundano conflito de gerações. os nossos pais repudiam, em envergonhado silêncio, a nossa apostasia, agnosticismo, ateísmo, e todos os restantes ismos. a nossa geração enaltece as suas próprias virtudes por nunca ter colocado fotos de sexo na web e apreciar a elegante simplicidade da declaração de amsterdão em relação à futilidade de impérios de papel.

eventualmente acabaremos por parecer tão inadaptados aos transhumanos quanto consideramos ser o pensamento quase mágico dos nossos avós.

é a bem aventurada osmose da tecnologia para a sociedade e o receio natural que qualquer entidade consciente sente perante a mudança.

eles acabam por encaixar, como nós, por experiência. o mundo é demasiado implacável para que não o façam e ainda assim sobrevivam.
isso e preservativos lá para os 8. felizmente!

ó salgadinho, se os meus pais tivessem tido dinheiro e tempo para escrever comentários tão prolixos entre as 11 e as 12 eu seria certamente astronauta ou estaria agora mesmo a beber qq coisa fresca num outro fuso horário.

Beijo, Filipa!

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