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a verdade é que ainda estou muito revoltada com a puta da vida. Deixou-me órfã de pai, como é que se faz as pazes quando algo deste calibre está envolvido? 

O meu pai não era o mais perfeito, não era o maior, não me dava banho, não me mudava as fraldas, não me aturava nas doenças, não era um pai presente. Tenho a ideia de que haverá poucos, da sua geração, que o tenham sido. Mas era o que me estragava para compensar as ausências e pouco jeito. Era o que me passava para as mãos os seus carros para que eu começasse a conduzir, ainda eu mal chegava com os pés aos pedais. Era o que todos os Domingos ia ao cinema comigo, ver filmes que não eram para a minha idade, e à vinda contava sempre a mesma história; a pipi das meias altas que ganhou uma bicicleta nova e se escoirou toda numa descida. Contem-me essa história ainda hoje, a ver se não rio quase até cair para o lado. Aos treze levou-me a sair, pela primeira vez, à noite, como me senti adulta naquele dia, e foi o que fez com que a música fizesse parte de mim desta maneira tão absurda. Mas música a sério; havia poucas miúdas daquela idade a ouvirem Led Zeppelin ou Mötley Crüe. Eu ouvia. Era o que me levava aos melhores concertos. Quando faleceu e lhe arrumámos as coisas, fiz questão de ficar com todos os bilhetes, nem sabia que ele os tinha guardado. Guardei também uma agenda, pequenina e preta, onde tinha apontado vários números de telefone. O meu lá estava, Filipa. Por baixo "minha filha". Era o da paciência infinita para os meus disparates e era o que me apoiava em tudo. Menos nas tatuagens. Sou assim por seu mérito, ainda que nem tudo seja bom, reconheço. 

Não era perfeito, sendo.

Todos os dias lhe peço desculpa por ter sido tão pouco. Não fui a tempo de ser mais. Perdi tanto tempo com braços de ferro, os adultos sabem mesmo foder esta merda toda, tanto tempo com teimosias da treta, que nem parei para pensar, e se ele me falta? 

O arrependimento mata mesmo. Aos bocadinhos, que é para custar um pouco mais.

É um dia triste, este.


12 comentários

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De Mirone a 19.03.2015 às 12:19

.
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De PL a 19.03.2015 às 12:41

Um abraço muito apertadinho.
(Nesta altura da minha vida, sou mais mãe dos meus pais do que filha. Tenho tantas saudades de ser só filha).
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De Palmier Encoberto a 19.03.2015 às 13:04

<3
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De Troll a 19.03.2015 às 13:53

Um grande abraço love.
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De Troll a 19.03.2015 às 13:54

(Como assim não aparecem os meus dados? Tenho tudo preenchido...)
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De NM a 19.03.2015 às 13:55

Ah tá... Preenchido nos locais errados, mas preenchido... :p
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De Outro Ente a 19.03.2015 às 15:03

Que dor. Lamento que este dia lhe seja triste. Um beijo.
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De A Mais Picante a 19.03.2015 às 22:48

Um abraço bem apertadinho, Pipinha. Não se torna mais fácil, mas aprendemos a viver com a falta.
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De margarida a 20.03.2015 às 10:38

<3
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De Melissa a 21.03.2015 às 19:56

Um beijinho muito apertado, Filipinha dos cacho de oiro ;)
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De mulher a 22.03.2015 às 16:36

Likewise.
bjinhos
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De a dESarrumada. a 28.03.2015 às 00:06

Força.

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