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por Filipa, em 01.06.18

Lamento não vos dar notícias minhas mas estou desde ontem ocupadíssima a limpar merda da minha gata.

Eu explico.

Dia de veterinária e estive mais de 2 horas -juro que não estou a exagerar- a tentar apanhá-la e metê-la na transportadora. Eu chamava-a e qual bchaninha qual quê, a gaja foi possuída pelo demónio habitual, ofereci guloseimas gatais, abri uma lata de atum, fui buscar os brinquedos dela, rezei dois Pai Nosso e de repente lembrei-me da dica da vet: tapar a cabeça à besta. Eu por um lado, o marido por outro -em pânico porque a sua menina estava a sofrrrrer tanto- e eis que a agarro com uma camisola dele que estava mesmo ali à mão e zás!, pra dentro da casota pondo, desta forma, a minha vida em perigo. Tranco a transportadora, triunfante e eis que a gata com os nervos ou sei lá o quê, praticamente se desfaz em merda e borra não só a camisola de esposo mai lindo, como a sua transportadora e lindo, lindo, foi termos dado por isso apenas no carro.

No meu claro.

Maneiras que aqui estou eu, a raspar merda de todo o lado, porque a bicha tinha de sair da caixa e claro que à minha volta eram só amorosas patinhas de gato, desenhadas a merda fresca, parecia uma ilha rodeada por um imenso e castanho mar de merda. Como a soltei na varanda e optei por deixar secar a merda antes de a limpar -também não iam conseguir, sabem lá o cheiro, aquilo foi vómito de poltergeist- reduzi o descalabro a alguns metros quadrados.

Quanto à gata e como não nos deixa pegar para a limpar, ainda está mais danada comigo do que o habitual. Olha para mim como quem diz: "sua cabra, uma gaja caga-se toda cus nervos e tu deixas uma lady de pedigree como eu, pernoitar naquele manto de merda".

Sinto que estou em perigo, mas tenho de levar a minha tarefa avante.

 

Até já, camaradas!

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Das actualidades

por Filipa, em 30.05.18

O meu pai morreu num sofrimento atroz. 

Só eu sei -porque o acompanhei até ao fim- das dores agonizantes que não o deixavam parar um segundo que fosse, naquela cama que rapidamente se tornou imensa para o seu definhado corpo.

Fui buscar a capacidade de aguentar alguma dor ao meu pai. Fazer-me forte significa não dar preocupações aos outros, significa mostrar que está tudo bem para que seja apenas eu a sofrer. Maneiras que quando o via cheio de dores, sabia que eram dores à séria, daquelas que fazem desejar a morte.

O meu pai nunca foi designado, na verdadeira acepção da palavra, um doente terminal. Ou às tantas, foi o meu subconsciente que tapou os ouvidos a tamanha obscenidade. O meu pai nunca esteve internado onde estão internados os doentes oncológicos, esteve sempre em Medicina Externa. O meu pai nunca teve o que chamam de cuidados paliativos. O meu pai estava a morfina, dada em doses cirúrgicas porque mais implicaria, por exemplo, problemas respiratórios, e se ele estava com uma pneumonia da qual não se conseguia livrar devido à fragilidade dos pulmões causada pelo cancro que tinha, não convinha arriscar.

Vi o meu pai em apneias e começou, também a mim, a faltar-me o ar. Corri por aqueles corredores da morte a pedir ajuda e a enfermeira ajeitou-lhe o tubo do oxigénio. Fomos fazer um TAC e não foi possível; a impossibilidade de se manter estático e direito era de tal forma que ainda hoje ouço os seus gritos de dor que ecoavam por aquele hospital afora.

Acontece que, entre tanta coisa que me faz ser isto que sou e que lhe fui buscar, uma das mais vincadas, é a esperança. 

A esperança nunca me abandonou. Tanto que dois dias antes dele falecer, perguntei ao médico quando é que o podia levar para casa. Sempre acreditei, como sempre acredito, que as coisaa nunca podem ser tão más quanto aparentam ser.

Tive esperança desde o primeiro minuto, quando o médico disse que era estadio IV.

Eu, para mim: "Ok. Está no pulmão esquerdo. Corta-se uma beca e fica fino. Ou um transplante, também pode ser".

Tive esperança quando o dr me disse que afinal estava também na traqueia.

"Na traqueia? Pronto, vai ter de andar com aquele buraco na garganta mas que se lixe"

Tive esperança quando afinal já tinha chegado ao fígado, ossos e cérebro. Na minha cabeça, a medicina haveria de ter algo mágico que o pusesse fino.

Tive esperança quando o vi levantar-se a custo da cama para dar dois passos, quando no dia seguinte o vi de fraldas porque já não conseguia ir à casa-de-banho, daí a uns dias deixou de comer e eu sempre ali, a negar, não, isto vai melhorar, calma que esta gente que adora greves e falar torto para quem está desesperado, sabe o que anda aqui a fazer e isto tarda nada dá aqui uma reviravolta do camandro que ainda vais andar comigo ao colo, enquanto o convencia a beber sumos de fruta.

E o meu pai olhava pela janela, felizmente ficámos na cama mais junto a uma, e não me respondia. Não sei se por alguma inconsciência ou se se estava apenas a despedir da vida, mas lembro-me dos seus olhos, grandes e vivos, a querer olhar mais além para que de alguma forma, quando fosse, não lhe ficasse cravado na alma a pateta sonhadora da filha ou aquela merda daquele hospital. Os dias estavam horríveis, foi em Dezembro, dias de chuva e cinzentos mas lá estava ele, da única maneira que conseguia estar algum tempo sem sentir dor, que era praticamente sentado, a olhar para a rua, e o que eu não dava para lhe saber os pensamentos.

Tive esperança até no dia da sua morte, eu que recorro várias vezes a Deus, entrei na capela do hospital para ter uma conversa franca com ele, e lhe digo que assim não podia ser. Que se era para aquilo, que o levasse, mas que se era para melhorar, que se fizesse à vida que aquilo tudo estava a dar cabo de mim.

Do hospital a minha casa eram 15 minutos de carro que nessa noite os fiz de lágrima no olho.

Quando estaciono e desligo o carro, toca o telemóvel. Percebo que é do hospital e nem nessa altura perdi a puta da esperança de que alguma coisa de positivo tinha acontecido.

 

"Filipa, como foi uma pessoa presente durante o internamento do seu pai, achei que lhe devia telefonar."

O seu pai faleceu.

 

 

Assim. 

 

Ainda não passaram anos suficientes para que o escreva sem dor, acho que nunca vão passar, mas desde esse dia em que metade de mim morreu e foi a enterrar com ele, que e acredito que por algum egoísmo meu e a tal da bendita da esperança, a eutanásia seria coisa que quisesse que o meu pai desejasse.

Com aquela esperança toda que pautavam os meus dias e me empurravam para a frente, perdê-lo por sua decisão ficando talvez para trás a hipótese das coisas correrem bem, era um risco que se calhar não queria correr.

É um tema demasiado caro para mim, com tantas variáveis que não sou capaz, nem nunca serei capaz, de efectivamente estar de um lado da equação. 

 

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a capacidade filha da puta em ser o mais ordinário que se conseguir, sem dizer um único palavrão.

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Eis que tropeço num pseudo projecto de sedutor de blogonéscias e/ou aspirantes a inteligentes, e lembro-me, também eu, de citar uma das regras fundamentais da Obra de afectos que é a minha própria existência:

 

Antes pobre de saberes do que gorda, anã e infodível.

 

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A blogoesfera morreu.

por Filipa, em 07.05.18

 

Paz à sua alma.

 

 

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